O Elo Em Falta No Sistema Empreendedor

BLOG DE MIGUEL MATOS

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Generalizou-se nos últimos anos em Portugal a ideia de que temos um ambiente económico, social e político que fomenta o empreendedorismo, que apoia os empreendedores, em especial os promotores de ideias inovadoras, dotados de uma enorme vontade de realizar os seus sonhos, criando valor para a sociedade e para si mesmos.

Os nossos líderes políticos, face à estagnação económica provocada pela crise financeira do final da última década e início desta, conscientes da incapacidade da nossa economia para reciclar os empregos perdidos na catadupa de falências que se lhe seguiram, viram na promoção do espírito empreendedor, uma saída, se calhar a mais eloquente, pelo menos a mais expedita, para contrariar a sensação de impotência de uma sociedade composta por um vasto conjunto de famílias emparedadas entre as dívidas acumuladas e a falta de rendimento para as pagar.

E tal como em todos os aspectos da nossa vivência contemporânea, os media exerceram o seu papel de propagadores da mensagem de que estava a ser criado um ecossistema e um ambiente social propício a criação do próprio emprego e que aí estava a solução para o flagelo do desemprego.

Instituições públicas e privadas promoveram e apoiaram legislação e criaram fundos financeiros e estruturas de apoio à actividade empreendedora. Tem sido notório o exemplo dado a nível europeu e nacional pelo lançamento de fundos comunitários de apoio ao empreendedorismo e a actividades de investigação e desenvolvimento. Há que destacar também a nível nacional, o trabalho incessante do Instituto do Emprego e Formação Profissional na promoção do Programa de Apoio ao Empreendedorismo e Criação do Próprio Emprego, assim como a nível local, por exemplo no nosso concelho, por diversas estruturas, como o Gabinete de Apoio ao Empreendedorismo – Made In Famalicão, no apoio à triagem e aconselhamento aos promotores de ideias inovadoras, e de grupos de empresários que se associaram com a finalidade de disponibilizar fundos de capital de risco para complementar as necessidades de investimento dos empreendedores.

Até aqui tudo certo. De facto, as políticas públicas são um factor de ignição da actividade empreendedora e de mitigação do desemprego. A sociedade civil agrupada alavanca e torna mais facilitada a concretização de ideias de negócio e a criação de emprego. Mas. E há sempre um mas. Porque é que não está a ser conseguida a massa crítica necessária para transformar a nossa sociedade e o nosso ambiente sócio económico, num verdadeiro ecossistema gerador de empreendedores com ampla visão geográfica e com forte capacidade de investimento. Porque é que continuamos sem passar da lógica do apoio à criação de microempresas, com alguns euros de capital social, as mais das vezes com dois ou três postos de trabalho, preferencialmente comerciais ou de serviços, com pequeno alcance de mercado, para uma lógica de criação de pequenas e médias empresas preferentemente industriais, de capital intensivo, de cariz fortemente exportador e criadoras de emprego em quantidade e qualificado?

Certamente que poderemos elencar muitas razões e válidas para a incapacidade de ultrapassar essa barreira, mas, estou convencido pela análise da nossa cultura ancestral, de povo do sul da europa, arreigado a uma tradição religiosa judaico cristã baseada na culpa, que haverá sempre uma razão, por trás de todas as outras, que será inultrapassável: o medo de falhar e das sanções sociais daí decorrentes. Razão essa que nos coloca em oposição a uma cultura de propensão ao risco e de busca do sucesso, em detrimento do medo, típica dos povos pertencentes a nações mais jovens, resultantes da imigração dos mais afoitos, dos mais aventureiros. Cabe a nós enquanto Europeus, afirmar que foi daqui que esses mais afoitos partiram, que aqui existem no meio de nós, muitos mais, disponíveis para assumir riscos elevados, e não apenas riscos pequenos. Cabe-nos a nós Europeus e portugueses em particular, enquanto nação, ultrapassar esse complexo cultural de culpa que nos tolhe face ao potencial insucesso das nossas empreitadas, pois esse, estará lá sempre. Apenas temos de o aceitar e incentivar quem arrisca, incentivar fortemente quem não se tolhe perante o medo de falhar. Cabe a cada um de nós, cidadãos, pelas nossas palavras de incentivo, pelo nosso suporte psicológico ao empreendedor que necessita de se reerguer de uma falência, cabe às nossas estruturas políticas e sociais, às nossas instituições financeiras, construirmos todos em conjunto esse elo em falta no nosso sistema de apoio aos empreendedores.

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